quarta-feira, 21 de julho de 2010

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Não, não é Cansaço...

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento, Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos, in "Poemas" Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Last time I checked...

...O S. João era uma festa popular que se comemora no Porto, certo??
Então alguém me quer explicar porque é que uma pessoa que mora no centro da cidade de Lisboa tem de levar, na noite de 23 de Junho, com uma barulheira infernal de foguetes à uma e meia da manhã?!
É que, só por acaso, isto até é um dia de semana e a pessoa em questão até teve de se levantar às seis da manhã...
Conclusão: muito sono, dor de cabeça e um humor mais negro que o mar do Golfo do México.
Please don't push me today.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Fim-de-semana campestre

Neste fim-de-semana, se alguém perguntar por mim, digam que fui desfrutar dos ares do campo. O tempo parece não estar numa de colaborar, mas sair da cidade por um bocadinho vai saber muito bem, faça chuva ou faça sol.
Até ao meu regresso, deixo-vos este querido para vos fazer companhia:


Gozo os Campos sem Reparar para Eles

Gozo os campos sem reparar para eles.
Perguntas-me por que os gozo.
Porque os gozo, respondo.
Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente
E ter uma noção do seu perfume nas nossas ideias mais apagadas.
Quando reparo, não gozo: vejo.
Fecho os olhos, e o meu corpo, que está entre a erva,
Pertence inteiramente ao exterior de quem fecha os olhos
À dureza fresca da terra cheirosa e irregular;
E alguma cousa dos ruídos indistintos das cousas a existir,
E só uma sombra encarnada de luz me carrega levemente nas órbitas,
E só um resto de vida ouve.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Pensamento do dia

Quando eu for grande, vou ter um emprego onde não tenha que trabalhar num feriado às 7h da manhã.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Dos trópicos para a Suécia em menos de 24 horas

Depois de vários dias de suor e sofrimento devido à temperatura inclemente e tropical que se fazia sentir no escritório, eis que o ar condicionado foi finalmente arranjado...
Desta feita, hoje, não só está a funcionar, como estão 15 graus onde me encontro! 15!
Não quero parecer ingrata, mas não se arranja nada a meio caminho, tipo 22, 23 graus, como nos escritórios normais? Não haverá uma alminha que saiba trabalhar com o ar condicionado nesta porcaria de empresa?!
Quanto mais tempo passo neste antro mais me apercebo que o mito da qualidade e modernidade das multinacionais não passa disso mesmo...Um mito sem fundamento porque esta empresa tão grande, moderna e virada para o futuro funciona pior e trata pior os seus funcionários do que qualquer empresa familiar.
Aliás, estou a pensar seriamente ir pedir emprego na mercearia da minha rua: não me chateio metade do que me chateio aqui, não morro de choque térmico e o Sr. José é bem mais simpático do que a maioria das pessoas com que lido todos os dias.

terça-feira, 1 de junho de 2010

When I say hell, I really mean hell...

Neste preciso momento em que vos escrevo (com grande dificuldade, diga-se), estão 29 graus no meu local de trabalho. Sim, 29! E não, não trabalho numa mina.
É possível que esteja a alucinar com o calor, mas estou quase decidida a fazer qualquer coisa para rebentar com o meu pé saudável e ir para casa outra vez. É que lá, pelo menos, tenho ventoinhas.